Educomunicação em tempos de fake news

As fake news (notícias falsas) estão no centro atual das discussões e muito presentes no debate sobre os usos e desusos das redes sociais. Recentemente, a divulgação de que empresa israelense foi a responsável por disseminar notícias falsas para impactar o percurso das últimas eleições presidenciais no Brasil a credibilidade dos gigantes da internet.

Segundo despacho da agência Associated Press, o Facebook baniu este mês uma empresa israelense que promovia campanhas para influenciar eleições em vários países. Dezenas de contas foram suspensas por disseminar desinformação. O chefe da política de cibersegurança do Facebook, Nathaniel Gleicher, informou que foram banidas 265 páginas, grupos, eventos e contas do Instagram.

A manipulação de informações veiculadas pelos meios de comunicação é um debate muito antigo. Porém, diante do poder e da rapidez de alcance das fake news, o fenômeno torna-se ainda mais difícil de ser combatido.

Para o professor da USP Ismar de Oliveira Soares, também presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais de Educomunicação (ABPEducom), o fenômeno das fake news colocou em evidência a importância da educação para a mídia e a necessidade de incluir esse tema nas escolas.

Atualmente, uma das competências gerais da Educação Básica, que faz parte do novo texto da BNCC para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, diz que é preciso “compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva”.

A escola tem a oportunidade, assim, de assumir papel de destaque na formação de uma geração mais crítica e consciente em relação à informação, que não é mais produzida e transmitida apenas pelos veículos tradicionais, como o jornal, a TV ou o rádio, mas que é veiculada tanto pelas redes sociais como diretamente por mensagens instantâneas enviadas por celulares.

Estudo da organização Avaaz apontou que 98,21% dos eleitores do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), foram expostos a uma ou mais notícias falsas durante a eleição, e 89,77% acreditaram que os fatos eram verdadeiros. A pesquisa, realizada pela IDEA Big Data de 26 a 29 de outubro com 1.491 pessoas no país, analisou Facebook e Twitter.

De acordo com dados da pesquisa, 93,1% dos eleitores de Bolsonaro entrevistados viram as notícias sobre a fraude nas urnas eletrônicas e 74% afirmaram que acreditaram nelas. O estudo também revelou que 85,2% dos eleitores do Bolsonaro entrevistados leram a notícia que Fernando Haddad implementou o “kit gay” e 83,7% acreditaram na história. Dos eleitores de Haddad entrevistados, 61% viram a informação e 10,5% acreditaram nela.

As informações científicas também tem sofrido o impacto no mundo digital. As ciências tem sido amplamente atingidas por contar com informações de interesse público — e político — e também por depender de pesquisas, teses e análises científicas.

Notícias mentirosas como a de que um cometa vai cair na Terra no próximo ano ou então que o homem jamais pisou na Lua são vastamente compartilhadas pelos usuários da web e das redes sociais. O alto número de compartilhamento faz com que uma quantidade ainda maior de pessoas recebam o conteúdo falso e acreditem no que está lendo. A cena está armada: mais uma fake news que caiu nas redes e que leva pessoas a acreditarem em informações não legítimas.

Uma pesquisa realizada na França mostrou que 79% dos entrevistados acreditam em teorias da conspiração. Dezesseis porcento admitiram duvidar da ida do homem à Lua e ainda 9% acreditam que a Terra é plana. Todas especulações falsas já desmentidas pelo método científico. Neste cenário, todo trabalho de pesquisa dos científicas fica à mercê das fake news e desprestigiado pela sociedade.

Toda comunicação é educativa, mesmo que o conteúdo dos produtos de comunicação não nos agradem, no sentido de fomentar a aquisição de conhecimentos julgados inadequados num certo momento e contexto. Por isso não dá para imaginar a comunicação sem educação e vice versa. Mas dá para perguntar se os educadores têm se preparado para os desafios da comunicação no tempo presente?

Essa é a motivação do movimento que ficou conhecido como Educomunicação: trabalhar para que educadores tivessem acesso à formação no campo da comunicação, preparando-se melhor para o exercício da profissão docente.

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