Excesso de sal bloqueia fluxo de sangue no cérebro, indica pesquisa dos EUA

O sal é conhecido pelo risco à saúde cardíaca, já que pode aumentar a pressão arterial. Agora, pesquisadores dos Estados Unidos mostram que a substância também tem o potencial de comprometer o funcionamento do cérebro, causando complicações parecidas com as da demência. Detalhes do experimento foram divulgados na revista Nature Neuroscience e reforçam a necessidade de manter a dieta equilibrada para prevenir doenças crônicas e debilitantes.

Na pesquisa, ratos foram mantidos em uma dieta com alto teor de sal — 16 vezes maior que o encontrado normalmente. Após oito semanas, o cérebro desses animais apresentou redução de 20% a 30% no fluxo sanguíneo, em comparação ao órgão dos roedores que seguiram um regime alimentar normal. Essa queda no fluxo sanguíneo foi acompanhada por sintomas semelhantes aos da demência, como inabilidade para reconhecer objetos, navegar em um labirinto e construir corretamente um ninho.

Segundo os autores, os danos do excesso de sal foram provocados pelo aumento de linfócitos no intestino das cobaias. “O efeito é devido à acumulação no intestino de uma classe especial de linfócitos chamados células Th17, que produzem grandes quantidades de citocinas IL17. A IL17 entra na circulação sanguínea e atua nas células endoteliais do cérebro, que alinham os vasos sanguíneos e reprimem a produção de óxido nítrico”, detalha ao Correio Costantino Iadecola, pesquisador da Faculdade de Medicina Weill Cornell e autor principal do estudo.

O óxido nítrico é fundamental para relaxar os vasos sanguíneos do cérebro, permitindo, dessa forma, que chegue ao órgão a quantidade de sangue necessária. “Essa perda de óxido nítrico reduz o suprimento de sangue para o cérebro e causa disfunção neuronal que leva à cognição prejudicada. Portanto, o alto teor de sal na dieta é capaz de prejudicar a função cerebral”, conclui  Iadecola. “O cérebro é extremamente dependente de obter a quantidade certa de sangue no momento certo. Se o fluxo sanguíneo não é compatível com o que precisa, as coisas dão errado.”

Os efeitos prejudiciais da IL17 nas células endoteliais do cérebro de ratos também foram observados em células endoteliais humanas, sugerindo que o alto teor de cloreto de sódio pode ser prejudicial também aos humanos. Quando os ratos retornaram a uma dieta normal, porém, tanto o fluxo sanguíneo quanto a cognição melhoraram. “A boa notícia é que, se o consumo de sal voltar ao normal, os efeitos nocivos na cognição diminuem e a função cognitiva torna-se normal novamente”, destaca Iadecola.

Em busca de mais detalhes sobre o efeito da substância no fluxo sanguíneo e de uma futura intervenção médica, a equipe de cientistas retirou vasos sanguíneos do cérebro de camundongos alimentados com dieta normal e com alto teor de sal e os cultivaram em laboratório. Ao comparar os resultados, perceberam, no segundo grupo, redução na função da eNOS, que é responsável pela produção de óxido nítrico. Quando o aminoácido L-arginina — que aumenta a atividade de eNOS — foi introduzido nos vasos sanguíneos desses camundongos, as células responderam normalmente. Aplicado diretamente em ratos, o resultado foi o esperado: defeitos na cognição foram resgatados.

Em humanos, altos níveis de sal na dieta têm sido associados à hipertensão arterial, que também é ligada à diminuição do fluxo sanguíneo do cérebro. No entanto, no experimento, a pressão arterial dos camundongos que ingeriram sal em excesso não foi afetada, sugerindo um mecanismo muito específico e independente para as alterações. “Esse estudo contribui para a compreensão crescente de como o intestino pode modular a função cerebral”, diz Jim Koenig, diretor de programas do Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos e AVC, nos Estados Unidos, e um dos autores.

Amauri Araújo Godinho, neurologista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, também chama a atenção para esse novo mecanismo de obstrução do fluxo cerebral. “Antes, imaginava-se que problemas relacionados ao fluxo sanguíneo cerebral estavam presentes no paciente que convive com a hipertensão devido à atividade inflamatória causada pela vasoconstrição, mas vemos que esse problema pode estar relacionado aos linfócitos presentes no intestino, que agem diminuindo o óxido nítrico. Pode ser até que as duas coisas provoquem essa diminuição, mas, agora, sabemos de uma nova fisiopatologia relacionada”, diz.

Segundo o médico, são comuns os casos de pacientes que não sofrem com hipertensão e têm demência. “Pode ser que o consumo de sal esteja relacionado”, cogita. Godinho também ressalta que a pesquisa americana serve como alerta em relação ao consumo excessivo da substância. “Esse trabalho mostra que, com mudanças de hábito, podemos impedir a ocorrência dessas complicações. Por exemplo, pessoas que sofrem com problema de demência na família podem tomar um cuidado ainda maior com a alimentação. É importante ressaltar também que o sal está presente em vários alimentos, como o molho shoyo, e, principalmente, os industrializados, incluindo refrigerantes. É preciso ficar de olho no que é consumido”, reforça.

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