Guarda que alertou sobre risco de assalto é demitido por justa causa

O funcionário, Guarda do Parque Lage foi sumariamente demitido por justa causa depois aparecer em reportagem cumprindo seu dever cívico alertando turistas sobre o risco de assaltos na trilha.

A demissão, feita pela empresa Angel’s Segurança e Vigilância Ltda., contratada pelo governo federal para fazer a vigilância patrimonial do Parque Lage e de outros imóveis da União, aconteceu um dia depois de uma reportagem do GLOBO mostrar o guarda em pleno exercício de sua função alertando grupos de visitantes que queriam subir até o Cristo, a exemplo de sete argentinas.

A iniciativa do guarda, que trabalhava havia 12 anos no Parque Lage, foi incentivada pela ICMBio depois do assalto contra mais de 30 visitantes ocorrido no último dia 3. Por e-mail, representantes da administração do Parque Nacional da Tijuca esclareceram que, por enquanto, a orientação aos vigilantes permanece, mas também reforçou que mantém contato com o comando do BPTUR do Rio de Janeiro e poderá fazer ajustes, caso seja necessário.

Além disso, eles informaram que não são responsável pela “seleção, contratação e/ou demissão dos vigilantes patrimoniais” que atuam no local. “A empresa Angel’s, contratada pelo Parque, é a prestadora de serviço responsável por esta gestão de pessoal”, afirmaram eles no texto.

“Reforçamos que em momento algum foi solicitada a demissão ou a penalização de qualquer funcionário desta empresa, ou de qualquer outra, que esteja prestando serviço terceirizado para a unidade de conservação. O Parque Nacional da Tijuca esclarece que não foi comunicado pela empresa Angel’s sobre o assunto e respeitamos a autonomia da empresa na gestão de seus funcionários”, complementaram os administradores.

Colegas fazem manifestação

Nesta sexta-feira, representantes do Sindicato de Vigilantes do Estado do Rio fizeram uma manifestação na porta da Angel’s Segurança e Vigilância, em Bonsucesso, contra o que chamam de fraude. Segundo o presidente do sindicato, Antônio Carlos de Oliveira, o caso do guarda Edson é apenas mais um entre vários outros que foram demitidos por justa causa por não aceitarem fazer acordo com os patrões.

– Agora, qualquer coisa é justa causa. Além do Edson, temos 110 vigilantes na mesma situação. O acordo que os patrões propõem é um crime. Quem quer ser demitido deve pagar 40% do FGTS à empresa.

Ou seja, a empresa que deveria pagar 40% de multa recebe este valor. Já instauramos inquérito civil no Ministério Público do Trabalho e aguardamos providências. Justa causa é a coisa mais desesperadora para um trabalhador. Perde a multa de 40%, não saca o FGTS, perde o proporcional de férias e do décimo-terceiro salário e perde o direito de acesso ao seguro desemprego – lamentou o presidente do sindicato.

Antônio Carlos disse que conversou com um dos sócios sobre o caso do guarda Edson. Segundo ele, o sócio se comprometeu a reverter a situação. Procurado por telefone pelo GLOBO, o sócio majoritário da Angel’s, José Mariano de Ávila Netto Guterres, não quis comentar a demissão de Edson nem as acusações do sindicato. Ele disse apenas que ajuizou ação por danos morais contra e entidade por ofensas verbais feitas durante protestos na porta da empresa, que foi criada em 1999 e tem sede na Rua Vieira Ferreira, em Bonsucesso.

Nesta sexta-feira, Edson Barbosa dos Santos se emocionou ao comentar sua demissão por justa causa. Em sua casa, na Penha, ele contou que adorava trabalhar no Parque Lage e que não se arrepende do que fez.

– Sou vigilante há 40 anos. O que não quero para a minha família, não quero para o visitante do Parque Lage. É preciso de segurança para os visitantes. Sempre defenderei o público. Tinha havido um assalto com mais de 30 vítimas. Como não avisar aos visitantes desse risco? Eu dava o meu sangue pela empresa e pelo ICMBio. Conheço tudo aquilo lá. Posso dizer, por exemplo, que os três locais de maior vulnerabilidade de assaltos são a terceira cascata, a pedra da escalada e o trilho do trem do Corcovado – comentou o guarda, antes de chorar ao lado do enteado e da mulher.

Edson dos Santos tem cinco filhos e seis netos. Em mais de 40 anos de trabalho, não conseguiu o suficiente para comprar casa própria. Paga aluguel de cerca de R$ 1.100 e outros mil reais mensais de remédios para a mulher, que sofre de depressão. Ele se desesperou ao imaginar que não terá condições de manter sua casa.

– Demissão por justa casa tira de mim todos os direitos. Como vou manter minha família? Perdi meu emprego por alertar para o risco de assaltos? Isso não se faz. Só quero o que tenho direito. Justa causa é aplicada em situações muito graves. Eu só agi pensando nos visitantes. Tenho um histórico profissional que me credencia. Trabalhei durante 10 anos como supervisor de segurança do Hospital Municipal Paulino Werneck, na Ilha do Governador. Outros 14 anos foram dedicados à segurança do Theatro Municipal e 13 anos em carros-forte – contou Edson dos Santos mostrando selfies feitas com artistas que passaram pelo Theatro Municipal como Martinho da Vila, Caetano Veloso, Flávia Alessandra e Carol Castro.

Visitantes lamentam demissão

O presidente da Associação Movimento Trilha Transcarioca, Horácio Ragucci, criticou a demissão do guarda.  Totalmente “injusta” no meu entendimento. O caminhante é responsável por assumir o risco, mas tem que saber qual é o risco – disse.

Nesta sexta-feira, visitantes do Parque Lage lamentaram a demissão de Edson e reclamaram da forma como foi feita. O advogado André Palestini, de 33 anos, disse que o guarda só teve a intenção de proteger as pessoas.

_ Acho um absurdo o que aconteceu. Primeiro, porque acredito que a segurança para o turista é primordial, fator principal. A empresa deveria se orgulhar de ter um profissional assim. O que aconteceu mostra que queriam maquiar a realidade. E é justamente o contrário que é necessário. Transparência sempre – comentou.

Já o auditor fiscal Luiz Cláudio Darzea, de 50 anos, considerou a demissão do guarda um desserviço. Acho que ele faz o correto. Avisar às pessoas, especialmente aos turistas, sobre o que estava acontecendo no local. Quem quisesse iria por conta própria. A demissão dele foi um desserviço, um paradoxo – disse Darzea.

Suspeitos detidos

A Polícia Civil informou que três homens já foram identificados como os autores do assalto no dia 3. Luiz Henrique da Silva Fonseca, Marcelo Santos de Oliveira e Victor Barreto de Souza Gomes. Os três possuem antecedentes criminais. Luiz Henrique tinha sido preso em flagrante em 2014 por roubo na trilha Dois Irmãos, no Vidigal. A investigação também apontou que ele fugiu para a Bolívia em 2017, retornando clandestinamente ao Brasil. Assim como Luiz, Vitor Barreto também responde por roubos em trilhas urbanas.

Marcelo Santos já havia sido condenado pela prática de outras violações patrimoniais e atualmente estava em liberdade por benefício da Justiça. De acordo com informações, o criminoso rompeu a tornozeleira eletrônica na última terça-feira. As investigações preliminares foram realizadas pela Delegacia Especial de Apoio ao Turista (Deat) com apoio de agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) Cerro Corá e Vidigal, e da Divisão de Monitoração Eletrônica da Coordenação de Penas Alternativas da Secretaria estadual de Administração Penitenciária (Seap).

Fonte: Extra

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