Ver-o-Peso: muito mais do que uma feira

Trabalhadores do maior cartão postal de Belém contam o que o Ver-o-Peso significa para eles e pedem melhorias

Um dos mais bonitos cartões postais da cidade, a feira do Ver-o-Peso desperta vários sentimentos nos seus trabalhadores e frequentadores do local. O primeiro, e principal, é o amor pelo “veropa”, como o espaço é carinhosamente chamado pelos paraenses.

E o segundo é o desejo de que a feira seja melhor cuidada pelo poder público municipal.”O Ver-o-Peso representa a minha segunda mãe. Você sabe que mãe é tudo para a pessoa. Eu considero como se fosse um garimpo. Aqui, tu vai garimpar, fazer a tua vida.

E vai procurar fazer o teu mundo. E eu fiz o meu mundo aqui”, disse Orivaldo da Silva Santos, o “Irmão”. Ele tem 61 anos de idade, 42 de Ver-o-Peso e vende ingredientes para preparar a feijoada.Irmão queria ser advogado. “Duas vezes eu bati na porta da faculdade, mas a porta não abriu. Então, vim pra cá, para ter a minha sobrevivência, o alimento. Aqui eu consegui essa barraca, através do meu trabalho.

A faculdade que eu passei foi aqui”, acrescentou. Para ele, a feira precisa, em primeiro lugar, de cuidados. “A palavra abandonada é muito forte. Esses ferros, as lonas e as barracas de madeiras daqui têm 18 anos. Nós que conservamos tudo isso”, afirmou. “Esse piso não foi apropriado para cá. Ele vai furando e vai dando aqueles pocinhos.

E água, com terra, vira lama. E lama fede. Aí, o Ver-o-Peso fede. Se fosse de asfalto, seria muito melhor”, completou.Ele também se queixa de falta de agilidade da administração. “Quando a gente pede alguma coisa pra cá, em vez de ajudar, ‘aperreia’ mais nós. Só deveres pra gente. Quando faz um pedido, demora muito pra vir”, completou. Irmão disse que outro problema sério na feira, a falta de segurança, foi resolvido.

“Graças a Deus, e ao coronel que comanda aqui a área, que colocou uma viatura ali. E o tem o box (base dos PMs), dando esse apoio, porque estava demais. O policiamento está muito bom”, afirmou. Em frente ao seu local de trabalho – a “Barraca do Irmão, o príncipe da misturada” – há uma faixa que diz o seguinte: “Obrigado Polícia Militar pelo apoio que você está dando ao Ver-o-Peso”. Irmão chega à feira às 6 da manhã e trabalha até 4 da tarde.

O feirante Waldeci Freitas Rodrigues tem 35 anos de idade e nove de “Veropa”, completados agora. “É daqui que a gente tira o nosso sustento e paga as nossas contas. É o nosso trabalho”, disse ele, que vende banana e goiaba. Morando na Sacramenta, Waldeci chega à feira às 4 da manhã e fica até 7 da noite.

“Tem movimento nesse horário”, afirmou. É com o dinheiro que ganha na feira que ele mantém a família, incluindo o filho, de 12 anos.O feirante também espera que a reforma da feira saia do papel. “A feira está bastante danificada. Basta você entrar na feira para ver que tem vários problemas. Buracos.

Até container (para depositar os resíduos) não tem”, disse. Ele observou que, mesmo precárias, as lonas, sobretudo nesse período chuvoso, ainda protegem os trabalhadores. “Agora, se rasgar, fica cruel o negócio. Tem feiras piores do que a nossa. Mas, como aqui é ponto turístico, a reforma já era pra ter vindo que tempo”, disse.

A gente chega sem nada e volta com dinheiro, diz vendedora

Há 22 anos Vera Dantas vende polpas de frutas na feira. Com seu trabalho, criou a filha, que também tem 22 anos de idade. “O Ver-o-Peso representa muita coisa. A feira é tudo. É o nosso pão de cada dia”, disse ela, lembrando que sua filha se formou em Nutrição.

“A gente vem pra cá 4 da manhã, sem nada, e volta para casa com dinheiro”, contou Vera, que tem 42 anos e mora no bairro da Cidade Velha.Ela também defende a reforma da feira. “Muitas barracas estão abandonadas. Muita chuva. Molha tudo. O piso está furado. Tem que ter uma revitalização para poder melhorar um pouco”, contou.

Em seu ponto de vendas, as polpas mais procuradas são as de cupuaçu, bacuri e taperebá.O pedreiro Carlos Fernando Assis Monteiro, de 65 anos, também tem uma ligação sentimental muito forte com o “veropa”: “Quando jovem, trabalhei aqui por 15 anos. Me criei aqui. Amo o Ver-o-Peso”, disse ele, que hoje frequenta a feira para fazer compras.

“Mas tem que melhorar muita coisa”, disse, apontando para o piso cheio de falhas da feira. “Tem que cuidar para chamar mais gente (clientes). Aqui é um cartão postal do nosso Pará”, acrescentou seu Carlos, que mora na Pratinha.Aposentado como operador de máquinas, Izaías Gonçalves de Farias contou que frequenta o Ver-o-Peso há 30 anos. “Não existe uma feira dentro de Belém para ‘encostar’ nessa aqui. Aqui tem tudo, chefe.

Aqui, ninguém morre de fome. Você compra o que quer. E, com pouco dinheiro, almoça”, disse ele, que tem 70 anos. Mas, contrariando as demais opiniões, Izaías não defende a revitalização para o espaço. “Se melhorar, pode piorar. Do jeito que está, tá bom. Não tem rato. Antigamente, tinha muito rato na feira”, afirmou.

Prefeitura aguarda Iphan para providenciar licitação

A Prefeitura de Belém informou que ainda aguarda a posição do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sobre a reforma do Ver-o-Peso. O escritório de arquitetura responsável pelo projeto das obras já finalizou a primeira de três etapas dos ajustes solicitados pelo Iphan Nacional e enviou ao Instituto.

A prefeitura disse esperar que, até o próximo mês, todas as etapas tenham sido analisadas e aprovadas pelo Iphan para providenciar o processo licitatório de execução da obra.A limpeza de todo o Complexo do Ver-o-Peso é feita por equipe fixa da Secretaria de Saneamento (Sesan), que realiza varrição, lavagem e manutenção.

A coleta do lixo é feita diariamente e começa sempre após ao meio dia. Com relação a ordenamento, acrescento a Prefeitura, a Secretaria de Economia (Secon) atua com uma equipe fixa no local, com o objetivo de combater comerciantes irregulares e garantir o passeio público.

Fonte: O Liberal

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